quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A caixa de aveia


A mudança é um estado inevitável. Essa percepção não é nova para mim nem me oponho a ela. Na verdade, procuro sempre a forma mais eficaz de ser um agente de mudança. Abraçar uma nova causa, inovar, evoluir constantemente.

No entanto, há sempre aqueles raros momentos que passam despercebidos, nos pegam de surpresa e confronta nossos próprios pré-conceitos. Um deles lembrou-me o quanto somos adestrados e ficamos facilmente acomodados às normas. Eu estava no Mateus no outro dia (nosso supermercado local) e estava comprando uns itens de costume que utilizo depois do treino: ovos, aveia , leite, proteínas, frutas. Enquanto andava pelo corredor, sem olhar para as prateleiras e já com o braço estendido prestes a pegar minhas duas caixas de aveia quando percebi que eles tinham "ido embora".

Olhei para cima, para baixo, para os lados e nada . Tudo o que eu vi foram itens que eu nunca tinha visto antes. Que m***! Peguei minha cesta e segui à procura da sessão de farinhas e derivados, pensando o tempo todo comigo mesmo "Que diabos!"

Olhei um pouco mais em volta e logo me virei, lá estavam elas. As caixinhas de aveia haviam mudado para um lugar diferente da ordem que eu costumava encontrá-las e não havia nem mesmo a quantidade que normalmente sempre tem.

Eu rapidamente percebi o quão chateado eu tinha ficado por essa simples mudança. Murmurei baixinho e mandei o todo mundo no Mateus para a Pqp por me fazer perder valiosos minutos do meu tempo. Por que eles não podiam simplesmente deixá-las lá onde estavam? Para quê trocá-las de lugar? E por que isso me incomodou tanto assim?

Já na fila para o caixa, me dei conta de que o simples ato de romper com esta sequência normal e rotineira de tantos meses (ou anos) me aborreceu a ponto de ficar realmente P da vida com uma rede inteira de supermercados, por mais bizarro que isso possa parecer. 

Se você ler com atenção você vai perceber essa não é uma história sobre mim ficando com raiva por que o Mateus resolveu trocar de lugar as caixinhas de aveia; é uma história sobre a vida, uma história sobre você, sobre o seu presente.

Eu deveria ter apoiado a decisão de terem mudado as coisas de lugar. A inovação trouxe mais espaço e outros itens antes não encontrados no supermercado agora ocupavam o lugar das caixas de aveia e isso aumentou a oferta de mais produtos. A mudança era necessária. Às vezes a coisa mais segura que você pode fazer é arriscar-se e a coisa mais arriscada de todas é continuar a ser sempre o mesmo.

Nós resistimos, procrastinamos, nos aborrecemos, nos protegemos a todo custo e reprovamos a mudança ao nosso redor. A mudança que pode quebrar e redirecionar os nossos hábitos, a mudança que pode mexer com o nosso namoro ou casamento, a mudança que pode nos fazer finalmente soltarmos e nos livrarmos do que nos deixa infelizes. O milagre nunca acontece na zona de conforto, e somente a mudança pode nos colocar no caminho que nós sempre quisemos caminhar.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Recluso

Ele mora sozinho.
Ele não tem amigos.
Ele tem dinheiro, sacos e mais sacos do mesmo.
Ele sabe que sempre estará sozinho.
Ele sabe que vai morrer sozinho.

Ele sempre soube que seria assim.
Ele nunca sentiu pena de si mesmo.
Não há sequer uma alma no mundo que pensaria duas vezes se ele morresse.
Nenhuma lágrima seria derramada por ele.

Não há ninguém que se preocupe com ele.
E o mais engraçado é que ele não se recorda de jamais ter havido alguém que se preocupasse.

Ele sempre rejeitou esses tipos de pensamentos antes;
O que será que os estão trazendo à mente agora?
Será que surgiu uma espécie de arrependimento diante de sua morte iminente?

Ele nunca se apaixonou.
E, até onde ele sabe, nunca foi amado por uma mulher.
Aqui e ali, ele conheceu algumas.
Algumas mais belas, sentiu enorme desejo carnal;
Mas amor, não.
Nunca se envolveu mais do que isso.

No buraco negro que é sua mente,
Houve sempre uma vaga idéia de que um dia,
Ele iria encontrar a mulher que ele esteve sempre procurando.
Ele provavelmente iria sossegar e ter um belo casal de filhos.
Mas, novamente, ele sabia que era loucura manter tais idéias em sua cabeça.
Porque ele está destinado a ficar sozinho.
Até o fim.

Ele já está de fora do resto da humanidade.
Ele é um recluso.
É tarde demais para começar a viver do jeito que ele sonhava..
Não é algo que ele escolheu para si mesmo;
É apenas a forma em que a vida o tratou.